sábado, 30 de maio de 2026

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO E NÓS

 Texto de Marina Tavares Dias

Na banca de trabalho do «Diário de Lisboa» amontoavam-se as chapas que eu mandara fazer lá em baixo, na tipografia da casa. Recuperação de velhos artigos dos anos 20 em que alguns amigos ensaiavam a sua biografia.


O Mário - como eu e o Zé Manel agora discutíamos - estava praticamente esquecido. «Mas houve a tua fotobiografia», dizia ele. «Sem quaisquer sobressaltos por parte de quem o poderia homenagear hoje», atalhava eu.


O dinheiro dos direitos de autor da primeira «Lisboa Desaparecida» derreteu-se rapidamente em semanas parisienses de demanda pelas moradas sá-carneirianas. Em 1988, já não me sobrava o suficiente para pagar uma exposição. Patrocínios? - tínhamos lá jeito para ir «cravar»! Obrigações morais? - quem é que podia incuti-las num poder cada vez mais analfabeto? Nós, os jornalistas da Cultura, assistíamos, escrevíamos e esperávamos.
Até que eu disse: e se eu ampliasse as minhas fotografias todas, as que paguei caríssimas, as que encontrei no cu de judas, todas mesmo? E se as juntássemos a estas chapas? E se pedíssemos ao Ruella que nos desse uma página de publicidade? E se convencêssemos a editora a pagar as ampliações? E se?

O Zé Manel encolheu os ombros lá ao jeito dele. «Vais gastar um balúrdio e fazer o trabalho de sapa. E ainda vai sobrar também para mim.» Dei-lhe razão. Oferecer uma exposição a quem poderia tê-la organizado com tempo, meios e pessoas suficientes? - Era revoltante. A não ser que...

A não ser que a fôssemos oferecer ao estrangeiro. Ao estrangeiro dentro de portas, para que Lisboa a visse. Ao Instituto Franco-Português. Peguei no telefone e pedi à telefonista: ligue-me aí para alguém que queira atender-nos por lá.

Atenderam. Ficaram encantados. Sim, tinham molduras de outras exposições. Sim, podiam arranjar escaparates. Sim, havia seguro para as peças emprestadas.
Aos vinte anos, é difícil que alguém tenha primeiras edições daquele preço. Eu não as tinha. Fui pedi-las ao bibliófilo e deputado Vilhena de Carvalho. Recebeu-nos em sua casa com hospitalidade e alegria. A partilha fazia parte do seu modo de vida. Levámos os livros mesmo antes de o seguro aparecer.

Montámos tudo: pregos, vidros, recortes, legendas. Num acidente com uma moldura cortei fundo o braço direito que sangrou durante algum tempo. Amarreio-o quando começou a doer-me a cabeça. A marca ainda cá está: testemunho que irá comigo a enterrar.
Depois de muitas horas de trabalho, inaugurámos a tempo, no dia 19 de Maio. E fomos logo ligando para todo o lado. Em Paris, o Eduardo Prado Coelho entusiasmou-se: sim, seria bom devolver Mário à cidade que escolhera. Falou-se de o levar para a Gulbenkian, assentou-se que iria para a sede da UNESCO. José Augusto Seabra veio a Lisboa buscar as imagens para o catálogo. Em classe turística, seguimos nós - eu e o Zé Manel - com os originais todos da exposição.

Conseguimos por lá o mesmo, martelando outros pregos e montando outras molduras, sempre como «infantaria» que éramos e que ainda sou, agora que - de nós três - só eu resto sobre o mundo.

Vieram as gentes e encheram as salas, e encheram a rua do Hotel de Nice e encheram o Café de La Paix. Finalmente duas placas. Coisas boas chegam aos pares. Descansámos sobre o resto dos recortes na cama por fazer de um quarto de hotel de terceira classe, no Boulevard Garibaldi (perto da UNESCO e tão longe do «nosso» quartier).

Mário voltou a Paris. Ficámos os 15 dias. Tirámos as férias todas que tínhamos para esse ano. Participei na conferência ao lado do Eduardo Lourenço (que gentilmente aceitara o pedido), enquanto o Zé Manel tomava apontamentos e... tirava as fotografias com a minha máquina. Não podíamos deixar de publicar tudo no «Diário de Lisboa». Jornalistas, fotógrafos, comissários, organizadores, arrumadores, electricistas e biscateiros.

Sentei-me na escada e perguntei ao Eduardo: achas que isto era possível com um poeta de igual calibre, caso ele tivesse sido francês? Ele riu-se: «com discussões académicas não se plantam árvores». Toca o telefone. Alguém de um posto de rádio português quer falar com «o comissário». Estou exausta. Não atendo. «Atende tu!» O tempo passava e o auscultador pousado na cadeira. Lá me cheguei a ele: «Não, não acho que esta exposição tenha comissário. Eu? Eu estou agora a martelar os pregos para as molduras.» A rapariga deixou de se ouvir, do lado de lá da linha. Quando voltou, disse apenas:

«Se está só a montar a exposição não é consigo que queríamos falar.» Desliguei e começámos a rir. Eram sete da tarde. Acho que só parei de rir lá pelas duas da manhã, a uma mesa da Closerie des Lilas.

E foi assim que estivemos com o Mário de Sá-Carneiro em Paris em 1990.








sábado, 18 de maio de 2019

Barcelona, 1914




Mário de Sa-Carneiro visita Barcelona em 1914, frequentando os cafés  mais célebres das Ramblas.




Chega a pensar ficar nesta cidade catalã  até ao fim da guerra, como confidencia em cartas ao avô,  José Paulino de Sá Carneiro , e também a vários amigos,  incluindo Fernando Pessoa.

O café  onde mais tempo passa a escrever é Au Lion d'Or, então célebre pela sua decoração de 'boiserie' ao estilo da Baviera. Na década de 1930, o café viria a ser a sede do POUM, partido anarquista que congregava vários escritores estrangeiros ( George Orwell, Ernest Hemingway, etc.) apoiantes das Brigadas Internacionais, durante a primeira fase da Guerra Civil de Espanha.



sábado, 6 de setembro de 2014

De automóvel

«Mário de Sá-Carneiro descreve, no conto juvenil “João Jacintho”, a garagem para onde se dirigia o automóvel que atropela o protagonista. Garagem que ainda existe, na Rua Alexandre Herculano, constituindo exemplo interessante da arquitectura da época. Mário de Sá-Carneiro devia conhecê-la bem, visto ter sido Carlos Augusto de Sá Carneiro, pai do poeta, um dos primeiros lisboetas a requisitar "licença de condução" nos primeiros anos do século XX. Rogério Perez recordará, em 1938, num artigo do "Diário de Lisboa", os passeios com o colega Mário, de automóvel, pela Avenida da Liberdade, a caminho deste local.»

(As Melhores Fotografias da Lisboa Desaparecida 





terça-feira, 11 de março de 2014

NIAGARA

Postal mandado a Mário de Sá-Carneiro pelo seu pai, em 1904.

American Falls (General View) Niagara Falls. N.Y.
28 Junho [1904] - Niagara Falls.

Querido Mario,
Estou nas cataratas do Niagara desde ontem. Surpreendente. Vou amanhã para Buffalo, e em 30 à tarde ou 1 da manhã estarei em New York. Mil lembranças a todos
e um abraço para ti do teu muito amiguinho

Carlos



(«Cartas a Maria e Outra Correspondência Inédita»
de
Mário de Sá Carneiro.
Organização e fixação do texto: Marina Tavares Dias, 1993)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Um postalinho para a pequena Edith

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO escolheu este bilhete postal ilustrado para enviar, de Paris, à sua pequena Tia Edith, filha tardia do avô, José Paulino de Sá-Carneiro. Em 1988, com mais de 85 anos, Edith de Sá-Carneiro contribuiu para a FOTOBIOGRAFIA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, de MARINA TAVARES DIAS, com depoimentos inéditos sobre o sobrinho, 15 anos mais velho. O postal estava datado de 1915 e aparece, com o verso manuscrito, na FOTOBIOGRAFIA.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Excerto das SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO

[...]
Pinturas a «ripolin»,
Anúncios pelos telhados -
O barulho dos teclados
Das Linotype do «Matin»...

Sabiam que linotypes iguais existiram, durante décadas, no vespertino DIÁRIO DE LISBOA, onde FERNANDO PESSOA e ROGÉRIO PEREZ planearam, pela primeira vez, a edição das obras inéditas de MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO?

Aqui está o azulejo que representa uma delas, desenhada por Stuart de Carvalhaes, para a escadaria da Redacção do jornal, na década de 1920.




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO.


Fragmento do manuscrito de
SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO

Em: caderno de poemas enviado a Fernando Pessoa, pelo correio e sem franquia paga, em 1916. Pessoa guardou-o religiosamente, tendo-se encarregue de divulgar e publicar, até à sua própria morte, em 1935, a obra do seu melhor Amigo. (adquirido já no século XXI, em leilão, pela Biblioteca Nacional de Lisboa)

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

REPORTAGEM DE UMA PAIXÃO: A FOTOBIOGRAFIA

Crítica literária publicada em 1988 
sobre a pioneira FOTOBIOGRAFIA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO 
escrita por MARINA TAVARES DIAS. 
Texto do jornalista Rodrigues da Silva.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

O ÚLTIMO TEXTO DE MARINA TAVARES DIAS NO 'DIÁRIO DE LISBOA'

Último texto de Marina Tavares Dias, no jornal que divulgou pioneiramente, na década de 1920, a obra de MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO. Sobre o livro «Mário de Sá-Carneiro e o(s) Outro(s)», de Fernando J. B. Martinho.

Neste último número do «Diário de Lisboa», MARINA TAVARES DIAS escreveu assim sobre o encerramento do 'seu' jornal: 'JUNTAMO-NOS HOJE A ELES, NO PASSADO QUE O FUTURO JÁ NÃO PODE ESTRAGAR'.

Com a mesma força, e sem estrago causado pelos anos, essas palavras ecoam agora nesta página. Em dupla homenagem.



sexta-feira, 6 de setembro de 2013