domingo, 14 de junho de 2026
sábado, 30 de maio de 2026
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO E NÓS
Texto de Marina Tavares Dias
Na banca de trabalho do «Diário de Lisboa»
amontoavam-se as chapas que eu mandara fazer lá em baixo, na tipografia da
casa. Recuperação de velhos artigos dos anos 20 em que alguns amigos ensaiavam
a sua biografia.
O Mário - como eu e o Zé Manel agora discutíamos -
estava praticamente esquecido. «Mas houve a tua fotobiografia», dizia ele. «Sem
quaisquer sobressaltos por parte de quem o poderia homenagear hoje», atalhava
eu.
O dinheiro dos direitos de autor da primeira «Lisboa
Desaparecida» derreteu-se rapidamente em semanas parisienses de demanda pelas
moradas sá-carneirianas. Em 1988, já não me sobrava o suficiente para pagar uma
exposição. Patrocínios? - tínhamos lá jeito para ir «cravar»! Obrigações
morais? - quem é que podia incuti-las num poder cada vez mais analfabeto? Nós,
os jornalistas da Cultura, assistíamos, escrevíamos e esperávamos.
Até que eu disse: e se eu ampliasse as minhas
fotografias todas, as que paguei caríssimas, as que encontrei no cu de judas,
todas mesmo? E se as juntássemos a estas chapas? E se pedíssemos ao Ruella que
nos desse uma página de publicidade? E se convencêssemos a editora a pagar as
ampliações? E se?
O Zé Manel encolheu os ombros lá ao jeito dele. «Vais
gastar um balúrdio e fazer o trabalho de sapa. E ainda vai sobrar também para
mim.» Dei-lhe razão. Oferecer uma exposição a quem poderia tê-la organizado com
tempo, meios e pessoas suficientes? - Era revoltante. A não ser que...
A não ser que a fôssemos oferecer ao estrangeiro. Ao
estrangeiro dentro de portas, para que Lisboa a visse. Ao Instituto
Franco-Português. Peguei no telefone e pedi à telefonista: ligue-me aí para
alguém que queira atender-nos por lá.
Atenderam. Ficaram encantados. Sim, tinham molduras de
outras exposições. Sim, podiam arranjar escaparates. Sim, havia seguro para as
peças emprestadas.
Aos vinte anos, é difícil que alguém tenha primeiras
edições daquele preço. Eu não as tinha. Fui pedi-las ao bibliófilo e deputado
Vilhena de Carvalho. Recebeu-nos em sua casa com hospitalidade e alegria. A
partilha fazia parte do seu modo de vida. Levámos os livros mesmo antes de o
seguro aparecer.
Montámos tudo: pregos, vidros, recortes, legendas. Num
acidente com uma moldura cortei fundo o braço direito que sangrou durante algum
tempo. Amarreio-o quando começou a doer-me a cabeça. A marca ainda cá está:
testemunho que irá comigo a enterrar.
Depois de muitas horas de trabalho, inaugurámos a
tempo, no dia 19 de Maio. E fomos logo ligando para todo o lado. Em Paris, o
Eduardo Prado Coelho entusiasmou-se: sim, seria bom devolver Mário à cidade que
escolhera. Falou-se de o levar para a Gulbenkian, assentou-se que iria para a
sede da UNESCO. José Augusto Seabra veio a Lisboa buscar as imagens para o
catálogo. Em classe turística, seguimos nós - eu e o Zé Manel - com os
originais todos da exposição.
Conseguimos por lá o mesmo, martelando outros pregos e
montando outras molduras, sempre como «infantaria» que éramos e que ainda sou,
agora que - de nós três - só eu resto sobre o mundo.
Vieram as gentes e encheram as salas, e encheram a rua
do Hotel de Nice e encheram o Café de La Paix. Finalmente duas placas. Coisas
boas chegam aos pares. Descansámos sobre o resto dos recortes na cama por fazer
de um quarto de hotel de terceira classe, no Boulevard Garibaldi (perto da
UNESCO e tão longe do «nosso» quartier).
Mário voltou a Paris. Ficámos os 15 dias. Tirámos as
férias todas que tínhamos para esse ano. Participei na conferência ao lado do
Eduardo Lourenço (que gentilmente aceitara o pedido), enquanto o Zé Manel
tomava apontamentos e... tirava as fotografias com a minha máquina. Não
podíamos deixar de publicar tudo no «Diário de Lisboa». Jornalistas,
fotógrafos, comissários, organizadores, arrumadores, electricistas e
biscateiros.
Sentei-me na escada e perguntei ao Eduardo: achas que
isto era possível com um poeta de igual calibre, caso ele tivesse sido francês?
Ele riu-se: «com discussões académicas não se plantam árvores». Toca o
telefone. Alguém de um posto de rádio português quer falar com «o comissário».
Estou exausta. Não atendo. «Atende tu!» O tempo passava e o auscultador pousado
na cadeira. Lá me cheguei a ele: «Não, não acho que esta exposição tenha
comissário. Eu? Eu estou agora a martelar os pregos para as molduras.» A rapariga
deixou de se ouvir, do lado de lá da linha. Quando voltou, disse apenas:
«Se está só a montar a exposição não é consigo que
queríamos falar.» Desliguei e começámos a rir. Eram sete da tarde. Acho que só
parei de rir lá pelas duas da manhã, a uma mesa da Closerie des Lilas.
E foi assim que estivemos com o Mário de Sá-Carneiro
em Paris em 1990.
quarta-feira, 18 de março de 2026
terça-feira, 10 de setembro de 2024
sábado, 18 de maio de 2019
Barcelona, 1914
Mário de Sa-Carneiro visita Barcelona em 1914, frequentando os cafés mais célebres das Ramblas.
O café onde mais tempo passa a escrever é Au Lion d'Or, então célebre pela sua decoração de 'boiserie' ao estilo da Baviera. Na década de 1930, o café viria a ser a sede do POUM, partido anarquista que congregava vários escritores estrangeiros ( George Orwell, Ernest Hemingway, etc.) apoiantes das Brigadas Internacionais, durante a primeira fase da Guerra Civil de Espanha.
sábado, 6 de setembro de 2014
De automóvel
«Mário de Sá-Carneiro descreve, no conto juvenil “João Jacintho”, a garagem para onde se dirigia o automóvel que atropela o protagonista. Garagem que ainda existe, na Rua Alexandre Herculano, constituindo exemplo interessante da arquitectura da época. Mário de Sá-Carneiro devia conhecê-la bem, visto ter sido Carlos Augusto de Sá Carneiro, pai do poeta, um dos primeiros lisboetas a requisitar "licença de condução" nos primeiros anos do século XX. Rogério Perez recordará, em 1938, num artigo do "Diário de Lisboa", os passeios com o colega Mário, de automóvel, pela Avenida da Liberdade, a caminho deste local.»
(As Melhores Fotografias da Lisboa Desaparecida
(As Melhores Fotografias da Lisboa Desaparecida
segunda-feira, 14 de julho de 2014
sexta-feira, 28 de março de 2014
Ícaro Antes da Queda
Mário de Sá-Carneiro
fotografado na praia francesa
de Trouville em 1909.
Inédito. Arquivo Marina Tavares Dias
terça-feira, 11 de março de 2014
NIAGARA
Postal mandado a Mário de Sá-Carneiro pelo seu pai, em 1904.
American Falls (General View) Niagara Falls. N.Y.
28 Junho [1904] - Niagara Falls.
Querido Mario,
Estou nas cataratas do Niagara desde ontem. Surpreendente. Vou amanhã para Buffalo, e em 30 à tarde ou 1 da manhã estarei em New York. Mil lembranças a todos
e um abraço para ti do teu muito amiguinho
Carlos
American Falls (General View) Niagara Falls. N.Y.
28 Junho [1904] - Niagara Falls.
Querido Mario,
Estou nas cataratas do Niagara desde ontem. Surpreendente. Vou amanhã para Buffalo, e em 30 à tarde ou 1 da manhã estarei em New York. Mil lembranças a todos
e um abraço para ti do teu muito amiguinho
Carlos
(«Cartas a Maria e Outra Correspondência Inédita»
de
Mário de Sá Carneiro.
Organização e fixação do texto: Marina Tavares Dias, 1993)
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Um postalinho para a pequena Edith
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO escolheu este bilhete postal ilustrado para enviar, de Paris, à sua pequena Tia Edith, filha tardia do avô, José Paulino de Sá-Carneiro. Em 1988, com mais de 85 anos, Edith de Sá-Carneiro contribuiu para a FOTOBIOGRAFIA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO, de MARINA TAVARES DIAS, com depoimentos inéditos sobre o sobrinho, 15 anos mais velho. O postal estava datado de 1915 e aparece, com o verso manuscrito, na FOTOBIOGRAFIA.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Excerto das SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO
[...]
Pinturas a «ripolin»,
Anúncios pelos telhados -
O barulho dos teclados
Das Linotype do «Matin»...
Anúncios pelos telhados -
O barulho dos teclados
Das Linotype do «Matin»...
Sabiam que linotypes iguais existiram, durante décadas, no vespertino DIÁRIO DE LISBOA, onde FERNANDO PESSOA e ROGÉRIO PEREZ planearam, pela primeira vez, a edição das obras inéditas de MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO?
Aqui está o azulejo que representa uma delas, desenhada por Stuart de Carvalhaes, para a escadaria da Redacção do jornal, na década de 1920.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO.
Fragmento do manuscrito de
SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO
Em: caderno de poemas enviado a Fernando Pessoa, pelo correio e sem franquia paga, em 1916. Pessoa guardou-o religiosamente, tendo-se encarregue de divulgar e publicar, até à sua própria morte, em 1935, a obra do seu melhor Amigo. (adquirido já no século XXI, em leilão, pela Biblioteca Nacional de Lisboa)
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
REPORTAGEM DE UMA PAIXÃO: A FOTOBIOGRAFIA
Crítica literária publicada em 1988
sobre a pioneira FOTOBIOGRAFIA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
escrita por MARINA TAVARES DIAS.
Texto do jornalista Rodrigues da Silva.
sobre a pioneira FOTOBIOGRAFIA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
escrita por MARINA TAVARES DIAS.
Texto do jornalista Rodrigues da Silva.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
O ÚLTIMO TEXTO DE MARINA TAVARES DIAS NO 'DIÁRIO DE LISBOA'
Último texto de Marina Tavares Dias, no jornal que divulgou pioneiramente, na década de 1920, a obra de MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO. Sobre o livro «Mário de Sá-Carneiro e o(s) Outro(s)», de Fernando J. B. Martinho.
Neste último número do «Diário de Lisboa», MARINA TAVARES DIAS escreveu assim sobre o encerramento do 'seu' jornal: 'JUNTAMO-NOS HOJE A ELES, NO PASSADO QUE O FUTURO JÁ NÃO PODE ESTRAGAR'.
Com a mesma força, e sem estrago causado pelos anos, essas palavras ecoam agora nesta página. Em dupla homenagem.
Neste último número do «Diário de Lisboa», MARINA TAVARES DIAS escreveu assim sobre o encerramento do 'seu' jornal: 'JUNTAMO-NOS HOJE A ELES, NO PASSADO QUE O FUTURO JÁ NÃO PODE ESTRAGAR'.
Com a mesma força, e sem estrago causado pelos anos, essas palavras ecoam agora nesta página. Em dupla homenagem.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Mário de Sá-Carneiro por Marina Tavares Dias, no Diário de Lisboa
Anos e anos a tentar
que os portugueses recordem
um dos seus maiores escritores:
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
que os portugueses recordem
um dos seus maiores escritores:
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa
Café Martinho da Arcada.
Fotografias originais do
ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS,
Fotografias originais do
ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS,
© Arq. Marina Tavares Dias, 2013.
Rua dos Retroseiros
Botões e fivelas
nas montras centenárias da Rua da Conceição, ou dos Retroseiros,
onde Mário de Sá-Carneiro nasceu.
Fotografia ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS, 2013.
nas montras centenárias da Rua da Conceição, ou dos Retroseiros,
onde Mário de Sá-Carneiro nasceu.
Fotografia ARQUIVO MARINA TAVARES DIAS, 2013.
terça-feira, 25 de junho de 2013
UMA ÚNICA PLACA RECORDA...
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO EM LISBOA.
A cidade esqueceu-o.
Com data trocada, eis a única homenagem que lhe fez.
A cidade esqueceu-o.
Com data trocada, eis a única homenagem que lhe fez.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
FOTOBIOGRAFIA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
FOTOBIOGRAFIA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
por MARINA TAVARES DIAS. 1988.
Mário fotografado por Camacho
(fotografia inédita)
por MARINA TAVARES DIAS. 1988.
Mário fotografado por Camacho
(fotografia inédita)
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Mário de Sa-Carneiro visita Barcelona em 1914, frequentando os cafés mais célebres das Ramblas. Chega a pensar ficar nesta cida...
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Mário de Sá-Carneiro Fotografia inédita, de perfil. 1914. Arquivo Marina Tavares Dias.





















